Musa Lendária, NÃO. Mulher Plural!


 Mulher plural. É assim que Geraldo Galvão Ferraz define sua mãe ao fazer apresentação de Paixão Pagu (2005). No texto, ele comenta sobre a imagem que a situa como irresponsável, “porra louca” e exibicionista, visão essa que, segundo ele acabou por constitui-se em uma lenda preconceituosa e sensacionalista construída em torno do nome Pagú. Mas ao mesmo tempo adverte que a narrativa elaborada por Pagú naquele texto dedicado a seu pai, surpreenderia aos leitores, pois quebraria o rosto construído pelo mito.

Este é o rosto (acima) construído para introduzir Pagú ao cenário literário político e cultural dos anos 80, como uma tentativa de superar a visão citada e destacar sua ação também, como escritora. Esse livro foi a antologia de Augusto de Campos (1982) responsável por introduzir Pagú na agenda crítico histórico brasileira. A citada capa apresenta uma Pagú jovem, à época de sua intensa participação no grupo dos modernos que criaram a Revista de Antropofagia

A partir de uma minuciosa pesquisa, a propósito das imagens disponíveis da escritora, pode-se supor que esta imagem capa seria um recorte da foto a seguir:



A referida foto encontra-se em livro de Aracy Amaral (2003), que trata da obra de Tarcila do Amaral. Pode ser vista também em muitos sites  que têm como conteúdo não só Pagú, mas também o Modernismo e seus participantes. No livro de Campos, no capítulo intitulado ‘Cadernos de Fotos’ 1912-1962 a reprodução aparece incompleta, nela somente é possível visualizar cinco pessoas do grupo originalmente retratado.   

A par do suposto  corte considera-se, dessa forma, que Augusto de Campos montou a foto capa de sua ‘vida-obra’ de Pagú a partir de um recorte, em que por um lado, foi separado cabeça do corpo, por outro,  teve seu corpo separado do grupo dos modernistas.

O fato é que tal imagem tornou-se icônica e transformou-se no rosto de Pagú, ou melhor, em uma rostilidade no sentido deleuziano (1998). Tal questão pode ser observada a seguir:

Esse é o cartaz do filme de Norma Bengell (1988) que biografa Pagú.[1] Nele pode ser verificado que a face da atriz Carla Camuratti, protagonista do filme, foi ‘colada’ à rostilidade criada para representar Pagú. Outro exemplo pode ser visualizado nos “Cadernos Pagu”, um periódico criado pela UNICAMP, em 1993 que se dedica ao estudo multidisciplinar das questões de gênero.[2] A imagem que ornamenta o site é a seguinte:

 



Vê-se, na imagem acima, uma recriação gráfica do recorte montagem de Augusto de Campos. A partir desses dados pode-se inferir que se sua antologia tem o grande mérito de situar Patrícia Galvão dentre os participantes do Movimento Modernista, também traz a reboque o encargo de ter produzido uma representação, da referida autora, que se torna unidade e totalidade. Assim, da mesma forma que as regras do método científico estabelecem como procedimento o recorte do objeto a ser pesquisado, Pagú objeto da crítica, teve sua imagem construída a partir de um fragmento de si, cuja contradição maior reside no fato de o plano interno do livro apresentar a produção literária de Pagú, não obstante a capa ter sido construída com uma imagem que lhe retirava do grupo de modernista que fazia parte.

De tal modo, é válido dizer que o retorno de Pagú fora acompanhado, em última instância, pelos mesmos elementos que caracterizavam o fazer da crítica e história da literatura de seu tempo, ou seja de uma  tentativa, por meio da linguagem, de produzir o enquadrando autor/obra em uma narrativa coerente e linear.[3] E como também já dito, ao reforçar que a maior obra de Pagú seria sua própria vida, o que a leitura de Campos pôde sobremaneira ter influenciado é  a prevalência da ação ‘heróica’ e não literária de Pagú.

O mito Pagú, narrado atualmente em suportes diversos, fora revigorado, em 2004, com a minissérie de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, que narrou em 54 capítulos, a aventura modernista entrecortada pelo romance dos protagonistas e pela história política e econômica do Brasil, naquele momento. E, nesse drama folhetinesco, a ‘musa’ Pagú aparece ao grande público, que, na maioria das vezes, apenas aprecia o que a televisão relata. [4]

O estereótipo de mulher brasileira, da nova beleza importada/enlatada e da suposta inferioridade feminina é questionada, assim como Pagú o fez e ao longo dos capítulos do presente estudo, será evidenciado em sua escrita viva.

Depois da ausência e silêncio da oficial história política e cultural brasileira, o mito Pagú mulher livre e rebelde propagou-se, contudo a sua importância política e análises que valorizem mais especificamente sua escrita ainda são poucos. É certo que foi importante, para sua visibilidade como militante de esquerda, a já citada, publicação do capítulo A solidão de Pagu, de Maria Lygia Q. de Moraes (2007) presente na coleção As esquerdas no Brasil. No entanto, o teor de sua vivência política apareceu muito diluída em meio a questões mais voltadas para sua vida pessoal. Aguarda-se a publicação argentina do Diccionario de la Izquierda Latino americana, (Editora Planeta) em que Pagú será descrita em um verbete figurando ao lados de conhecidos militantes.

Hoje com o avanço e as possibilidades das narrativas em meio digital, são incontáveis os sites e blogs que se dedicam a Pagú. A maioria, inscreve-se no  biografismo, pois parece que todos querem fazer justiça a grande mulher que fora Pagú e para isso narram suas ‘peripécias’ no intento de legitimar sua importância. Poucos ainda são - já houve avanço - os estudos que se dedicam aos seus escritos, a maioria permanece nas inscrições biográficas, confundidas com históricas e ou críticas.[1]

A despeito do comentado por seu marido e seu filho, em diferentes apresentações de obras, que Pagú não gostava mais, na idade madura, de ser chamada por esse apelido. Contudo, aqui neste estudo será mantido, pois ele lhe fora dado á época da constituição do movimento antropofágico e assim definiria não uma figura existencial fixa, mas uma postura performática que se configura pela mobilidade constante, ininterruptamente assinalada pela ética/estética/política da Antropofagia Cultural da qual participara. Assim, suas diferentes escolhas e soluções estéticas, bem como seus variados alvos políticos vistos à luz de sua vinculação a um compromisso com as rupturas propostas pela Antropofagia, são questões que a tese pretende desenvolver.

Destaque também será dado pela grafia original utilizada pela escritora, em que se empregava acento agudo na oxítona gu, como pode ser visto em seu autorretrato:



Pagú e as suas performances visíveis em seus escritos serão aqui, a sinonímia de MULHER PLURAL, ou seja, o locus em que  múltiplas singularidades manifestam-se, porque  gestadas pelo constante movimento dado por uma postura antropofágica, na qual as experiências mobilizam devires, aparentes em sua escrita e em suas ações, pois “O mais interessante na vida e no trabalho é o que permite tornar-se algo de diferente do que se era ao início.” (FOUCAULT, 1994, p. 01) E, isso, os escritos de Pagú, em diferentes gêneros, poderão confirmar: um constante movimento de devoração de forças e afetos que conferem sentidos ao seu processo de escrita e subjetivação.   

Lúcia Helena da Silva Joviano
 http://lattes.cnpq.br/1980224648363400



[1] Um imenso acervo de referências sobre Pagú e suas obras podem ser encontradas em anexo ou em: FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Patrícia Galvão, a Pagú: musa antropofágica e visionária. Templo Cultural Delfos, abril/2014. Disponível em: http://www.elfikurten.com.br/2014/04/patricia-galvao-pagu-musa-antropofagica.html acessado em 05/10/20014.

 

 


[1] Informações e ficha técnica disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Eternamente_Pagu > Acesso em 10/01/2014.

 

[2] Para visualização acessar: http://www.pagu.unicamp.br/node/8 > Acesso em 10/01/2014.

 

[3] Os procedimentos críticos dos irmãos Campos serão tratados mais adiante.

[4] Informações sobre a minissérie conferir: http://www.teledramaturgia.com.br/tele/umso.asp  > Acesso em:08/012012.

AMARAL, Maria Adelaide; NOGUEIRA, Alcides. Um Só Coração. Direção geral de Carlos Araújo e direção de núcleo de Carlos Manga. São Paulo: Som Livre, distribuidora. DVD (1320 min.): DVD, Ntscc, son., color. 2004.

 




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